texto originalmente publicado em 2024

vestir-se é essencial, vivemos e transitamos no mundo em um corpo vestido.
articular nosso ser dentro de peças de roupa, vai além de montar looks incríveis e truques de styling.

a vestimenta é sinônimo da organização pessoal e social da nossa aparência, um breve passeio por nosso acervo de roupas pode informar quem somos, quais os nossos interesses, nossas preferências e referências, além de guardar histórias ou lembranças, nossas prioridades sem o uso de palavras – principalmente se o estilo pessoal for elaborado e contemplar as múltiplas cotidianidades pessoais, profissionais, em consonância com a própria identidade de forma ativa.
independente do ser humano ter coberto o próprio corpo em caráter de pudor como afirma a passagem de gênesis do antigo testamento, por adorno, diferenciação social, proteção, comunicação ou expressão individual, vestir-se foi e é uma necessidade para nossa sociedade ocidentalizada.
a moda, por sua vez, é frequentemente associada ao vestuário, às tendências passageiras de roupas, mas seu impacto, no entanto, não existe apenas nessa esfera e, ainda que existisse, sua influência pode ser sentida em outras áreas como fotografia, design e design de moda, publicidade, jornalismo, cinema, arte, música, entre tantas outras.
enquanto a moda ‘’manifesta a sensibilidade de uma época’’ a roupa é a materialidade e concretude, ou seja, ela dá forma às ideias e abstrações, símbolos, de estilos, de significados históricos, ritos sociais, condição mágico-religiosa, valores e crenças coletivas de uma época, por meio da experimentação formal, isto é técnica (modelagem, costura e etc.).
e, à medida que a homogeneização visual avança, a roupa pode ser lida também como uma resistência contra o apagamento sociocultural.


sendo a moda uma representação das ideias dentro de um determinado período de tempo, ela está refletindo as problemáticas, futilidades e preconceitos de que parcela da sociedade?


do soul ao baile de favela imortalizado nas arenas olimpícas pela rebeca andrade, a exposição “funk um grito de ousadia” também fala de moda e de rebolar como ato político.
“uma maneira de demonstrar domínio sobre o próprio corpo e de se conectar com a ancestralidade africana (…) exprimem o pertencimento de seus corpos e seu poder de decisão sobre eles’’.
tivemos a oportunidade de visitar – e alimentar o nosso repertório – nesta exposição que nos conta o contexto do surgimento do funk carioca no Museu Arte do Rio no mês passado.
antes de passar as catracas para acessar a exposição, já temos diante dos nossos olhos uma faixa com a escrita de Elegia 1938 que carrega com o seguinte verso em destaque: ‘ aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a Ilha de Manhattan.’’, parte de uma outra amostra que também acontecia no mesmo andar, a exposição “Renúncia” que apresenta a cidade do maranhão em três linhas narrativas pelas lentes do fotógrafo mobi.
agora, uma vez do outro lado do túnel, ficamos imersos em uma profusão de cores, texturas, sons e imagens. a riqueza de objetos em exposição valeram a visita.

de vinis a roupas da época, uma parte da exposição ainda é dedicada a artista lacraia, que embora tenha sido uma presença emblemática na época enfrentou preconceito no palco e fora dele.
… e claro, a moda permeia tudo isso como um código de pertencimento, reafirmando o funk carioca como um movimento de identidade própria, distanciando ainda mais o estilo musical nacional das influências do hip hop americano.


se a moda ‘’funciona como elemento de mobilidade social e individual, que, por meio do imaginário vai progressivamente contaminando de homogeneização global e derrubando as barreiras físicas impostas pela cidade’’


não seria o momento de cuidarmos dos nossos discursos?
a olimpíada acabou, mas a reflexão sobre a moda neste contexto não pode terminar por aqui – vem comigo!
‘’O que causa essa antipatia é a falta de representatividade, é você olhar pra uma revista, uma campanha, uma loja, um grupo e não se ver ali. Por anos a fio você não se enxerga lá nem se sente bem vinda.’’ – Camila Yahn, 2021.
com o início das olimpíadas em meados de julho começaram as discussões acaloradas nas redes sociais sobre o uniforme do Brasil e, observando os argumentos, é notável que existe um abismo entre o público que trabalha no meio, o que acessa alguma informação e o consumidor – há uma linha muito tênue entre o que realmente importa e o que são argumentos elitizados.

assim como yahn escreveu em 2021, o incômodo com a vestimenta olímpica vem do fato dela não representar uma parcela de pessoas da área criativa/ cultural da moda – e isto, perpetua a distância do público geral em ter acesso a informações qualitativas sobre o assunto, despolitiza o debate e ainda deixa uma sensação agridoce de intolerância e preconceito.
muito foi dito sobre as expectativas e a “pouca” criatividade em representar o Brasil, mas pouco foi mencionado que a coleção foi produzida através de um processo de confecção artesanal e sustentável pelas mãos das bordadeiras de Timbaúba dos Batistas e costureiras do Pró-Sertão.
não seria muito mais interessante munir o público sobre esse conhecimento?
será que faz sentido seguir endossando falas elitistas quando a maioria da população nacional faz uso de peças de roupa de fast fashion como a riachuelo?
são nesses momentos que quem trabalha com moda (como a profissional por trás do image tracks!), nem sempre sente-se parte dela.
obrigada por chegar até aqui.
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